A praça da Graça de todos. Pádua Marques.

Existem praças e praças. E existe no Piauí uma praça da Graça. Porque praça é lugar para ter graça, tipos interessantes, alegres, tristes, humanos, porque praça é lugar de gente. Lugar onde tem um cachorro de rua que dorme, tem um velho feio que espera a abertura da Caixa Econômica Federal, uma senhora que compra revistas na Banca do Louro, a mulher que se admira com o tamanho da estátua de Simplício Dias.

Também é na praça que tem um funcionário da EMPA que perde seu tempo brincando com os gatos, uma mulher que puxa pelo braço um menino birrento, o homem que toma um refresco de cajá umbu, o finado orelhão que fizeram para os homens baixinhos, tipo doutor Valdir Aragão, o carro da polícia que ronda para mostrar serviço, o rapaz que digita o teclado do celular, os gansos com fome dentro de um cercado.

É onde uma cantora de rua defende uns trocados cantando Belchior, mais adiante, um coco vazio, com um canudo enfiado no buraco, um carro estacionado na vaga de pessoas deficientes, um flanelinha nervoso exigindo ordem, um sisudo vendedor de picolés reclama do troco, o homem que na porta da Caixa esfrega o cartão magnético na camisa, uma velha que leva os exames médicos para a Clínica Doutor João Silva, um rapaz que compra cigarros. Tem um coletor de lixo em frente ao Cine Éden.

Passa uma moça de minissaia, outra moça que compra bijuterias, uma professora que reclama do salário, outra que fala mal do prefeito, um casal de mineiros olhando a igreja matriz, o Louro abrindo a geladeira, uma fila se forma na Kombi da xerox, uma menina se enxerga na vitrine da Ótica Ferraz, do lado da igreja do Rosário, uma velha se benze já na As Americanas, um carro buzina alto na frente do Bar Carnaúba, hoje as ciganas estão indo embora mais cedo. Os gansos estão querendo água para nadar.

Alguém passa na calçada dos Correios, um conhecido me chama em voz alta, passo em frente a Iguatemi, Parnaíba não tem livrarias, a Academia Parnaibana de Letras está sempre fechada, a igreja matriz está em obras de restauração, Simplício Dias está morto e enterrado nela, meu relógio está dando dez horas, transporte público está um horror, lá vem o Mário Boi, muita gente do Maranhão na fila da Caixa Econômica, o antigo calçadão ficou mais limpo e sem movimento, muita gente compra remédio na drogaria da esquina sem a receita médica. Lá vem um colega indesejável, Vou ser se me livro dele. Pádua Marques é cronista, contista e romancista, da Academia Parnaibana de Letras e do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba. 

Facebook
WhatsApp
Email
Imprimir
Picture of Pádua Marques

Pádua Marques

Jornalista, cronista, contista, romancista e ecologista.

Seja avisado a cada notícia nova!