Uma coisa que se acabou com a chegada da internet e a civilidade ajudou a enterrar de uma vez por todas foi briga de vizinhos. Não se ouve mais falar que nessa ou naquela rua houve uma hora que o negócio fechou, tiveram que guardar as facas da cozinha e o SAMU e a baratinha da polícia ficou de prontidão. Mas eu lembro bem que nalgumas cidades pequenas, dessas que só têm uma rua calçada, a da casa do prefeito e que passa na frente da igreja, que quando tinha briga a temperatura ia lá em cima. Coisa de chamar atenção até no Vaticano.
A gente até já sabia de quem se tratava, quem eram os personagens que por dê cá essa palha largavam a jogar cadeira uns nos outros, puxar faca, tesoura e outros instrumentos cortantes. Briga de vizinhos é coisa de dar torcida, desorganizada, igual a torcida de time ruim, uns a favor e a maioria contra. Briga de vizinhos, daquela que os moleques jogavam areia, davam vaias, cobriam de nomes feios, filha dessa, filho daquela.
E os motivos eram os mais diversos, iam da ofensa, inveja por um bem adquirido, um animal que entrou na casa alheia e sujou o tapete, o gosto por uma comida, convite pra aniversário do afilhado, morte de gente idosa, qualquer coisa que causasse ofensa era mais que motivo para começar uma briga de vizinhos.
Tinha ainda os aborrecimentos pelo latido do cachorro, miado dos gatos no cio, folhas de plantas que caíram na calçada, roupa no varal, música em alto volume, bastasse achar feio uma roupa, pagamento de dívidas, o pau quebrava era feio. E as mulheres na segunda-feira estavam na igreja, batendo os beiços, pedindo perdão a Deus, fazendo promessas pra esse ou aquele santo de devoção, se valendo com São Benedito e Nossa Senhora, como se santo soubesse o que um dia foi briga de vizinhos. Mas é assim mesmo. Hoje os tempos são outros, as formas de provocação são outros.
Basta uma mocinha passar o dia inteiro na porta da rua com o celular na mão, ligando pra Deus e o mundo, na fuxicada, pedindo música na rádio, falando com o namorado maconheiro, lixando as unhas, penteando os cabelos cor de fogo, e outra pariceira passar e não gostar, está nascendo um pé de briga. Mas a internet acabou com essa prática às vezes tão perigosa, que em alguns casos deu até em morte. Hoje, briga de vizinhos é acontecimento raro, as mulheres se comportam mais, vivem dentro de casa, no pé do fogão, mas com o celular na mão. Tivesse que falar tinha era coisa. *Pádua Marques, cronista, contista e romancista, da Academia Parnaibana de Letras.