No meu tempo de menino existia na natureza um besouro que a gente chamava de cavalo do cão. Voando na mata ou dentro de casa era motivo de muito desespero. Mais pela aparência e pelo ronco. Sem exageros, quando passava perto da gente mais parecia um avião levantando voo. Talvez essa repulsa por ele se devesse ao nome, que ninguém até hoje sabe quem foi que botou. Ainda deve existir por aí, porque ninguém nos disse até hoje se o cavalo do cão foi extinto.
Mas cavalo do cão era uma forma também de botar nome, apelido em alguém metido a valente, brigão, principalmente em festas e quermesses no interior, alí pros lados do Bom Princípio e Cocal, nos tempos de Quincas de Brito. Pois esse Bolsonaro já se pode chamar de cavalo do cão. Se aproveita de um momento difícil e delicado da vida política brasileira pra fazer e acontecer.
Bolsonaro acha que tem remédio pra tudo em quanto, do jeito dele. Segurança, educação, economia, conflitos de fronteira e entre os três poderes, briga de boteco, briga de marido e mulher. Tem o comportamento do delegado de interior dentro de uma casa de forró. Aquele negócio de, pra desapartar uma briga basta dar um tiro pra cima, meter a mão na cara de um caboclo mais exaltado e tomar a faca de outro e engarguelar outro que esteja falando alto.
A coisa não é bem assim, Bolsonaro. Se por uma infelicidade geral da nação este capitão for eleito, vai encontrar uma caixa de ferramentas bem desarrumada. Pregos misturados com fitas isolantes, toco de vela, parafusos de sem cabeça. Toda sorte de tranqueira. Pelo que se sabe e o que se fala, conhece pouco e mal o Congresso Nacional, onde está há um bom tempo. Conhece Economia menos que qualquer vendedor de manjuba do Mercado da Caramuru.
Bolsonaro vai, quando contrariado, xingar todo mundo. Dentro de poucos meses não vai saber o que está fazendo. O Brasil, do jeito que está e do jeito que foi deixado necessita de um presidente equilibrado emocionalmente. Problema de tudo quanto é lado ele vai encontrar. Confusão demais. Bolsonaro, metido a cavalo do cão, com certeza não vai ter a paciência de um borracheiro, que pouco fala quando remenda a câmara de ar do seu carro enquanto você está desesperado porque perdeu a hora de chegar ao trabalho.
Não vai ter paciência pra conversar e equilíbrio pra resolver problemas, aqueles ditos problemas domésticos. Vai dar autoridade pra gente pior do que ele, gente acostumada a gritar e insultar. O cavalo do cão está neste momento sendo o porto seguro político dos desavisados e oportunistas. Hoje, aqueles que batem palmas pra suas grosserias serão os mesmos que estarão pedindo pra ele sair. O Brasil corre o risco de se transformar num baile funk.
Bolsonaro vai repetir Collor de Melo, o jornalista e playboy alagoano, que entrou na vida pública por um partido do tamanho de um caroço de arroz, ganhou a eleição com um discurso moralista e caçador de marajás. Muita gente foi nas águas dele. Como muita gente também que nunca se recuperou do desastre em que ele transformou a economia, a sociedade civil e as instituições.
Dois anos depois de tanta confusão que fez, acabou sendo enxotado do Palácio do Planalto feito um sapo ou uma cobra, debaixo de vassouradas e de vaias. Bolsonaro tem todas as condições de repetir Collor. Até fisicamente se parecem. Os jovens eleitores de hoje e os esquecidos e desavisados, outros metidos a espertos, que não viram aquele momento de confusão, podem agora assistir, Cavalo do Cão, na sessão Vale a Pena Ver de Novo. Pádua Marques, é articulista, romancista, contista e cronista, membro da Academia Parnaibana de Letras e do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba. Este artigo foi escrito em 18 de setembro de 2018.