Cheguei aos setenta anos. *Pádua Marques.

De hoje a exatos vinte dias, eu chego aos setenta anos. Para muitos e a mim em particular, é uma experiência tão desejada a ao mesmo tempo assustadora. Setenta anos, quantos meses, dias e anos, quantos amigos, conhecidos, lugares, situações, alegrias, decepções, tristezas, ganhos e perdas, feitos e defeitos. Mas é tempo de recordar e celebrar esta benção de Deus de me deixar chegar à idade de avô, o que infelizmente eu nunca fui.

Venho de uma família numerosa, eu sou o décimo na ordem. Nasci num dia, o 26 de maio de 1956 ainda na segunda metade do século XX. Para as gerações que me estão sucedendo, eu sou um velho, mas também já fui um menino, brinquei, fiz meus brinquedos, joguei bola, embora não fosse tão bom nesse entretenimento, tive sonhos, amores, desejei conhecer o mundo, nasci numa época que o homem tinha que ter uma profissão, meios de se sustentar, ter sua própria família, sua casa, mulher e filhos.

Saí da casa de meus pais aos dezoito anos, fui ganhar o mundo embora com medo, fui com medo mesmo. Essa é a sina dos homens pobres. Conheci a frieza da cidade grande, seus equipamentos e sua opulência. Bem diferente da minha terra e suas poucas ruas, suas igrejas e suas praças. Reconheci que vinha de uma terra de pobreza, onde faltava tudo, do dinheiro às oportunidades. Fui trabalhador numa fábrica de lixas, comi de marmita, acordei cedo para pegar um ônibus elétrico e chegar na Lapa às sete horas, peguei carona e garoa, andei de metrô, mas não podia mostrar que era fraco.

Estudei e me formei. Não cheguei aonde queria no início, mas foi até onde deu. Acho que fiz muito. Escrevi sempre. Hoje os tempos e as oportunidades são outras. Ganhei e fiz muitos amigos. Estes me valeram nas horas difíceis. Esses amigos me fizeram conhecer pessoas importantes que me deram a mão. Sou eternamente agradecido a todos eles.

Se fiz pouco, que Deus me perdoe, que me perdoe por insistir em uma atividade que como dizem alguns mais velhos, não bota dinheiro em casa. Acho que fiz o necessário. Escrevi livros, revistas, discursei, fui aplaudido tive ideias grandes, deu autógrafos, fui abraçado e reconhecido por algumas crianças. Setenta anos.

Ganhei e perdi amigos, uns morreram, outros foram embora, casaram, foram engolidos pelo mundo, outros ficaram até ricos de posses, e eu voltei e fiquei aqui esperando chegar aos meus setenta anos. Confesso que me surpreende esse negócio de chegar na idade de um avô, ter aquela paciência dos velhos no terço dos homens. Eu só peço a Deus, que me conserve sereno e bom, naquilo que faço. Porque envelhecer tem seu lado bom, mas tem seu lado triste de não ter mais aqueles a quem mais um dia amamos. Pádua Marques, cronista, contista e romancista, membro da Academia Parnaibana de Letras e do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba. 

 

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Pádua Marques

Jornalista, cronista, contista, romancista e ecologista.

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