Malgaxe
Fui na Livraria Moçambique e comprei o meu desejado exemplar de Quincas Borba. Encontrar Machado ali, tão longe do Brasil, foi uma felicidade rara. Era como reencontrar um irmão que não via há muitos anos. Paguei, saí da livraria, peguei o trem até a costa, depois o barco que atravessaria o Índico até onde estava morando, em Madagascar. Quantos anos se passaram desde que li aquele livro, ainda no ensino médio? Esperava encontrar Dom Casmurro, Memórias Póstumas — mas não. Quem fazia sucesso ali era Quincas.
Devorei o livro rapidamente, como a muito tempo não fazia. Quando terminei, quis alguém para conversar, mas ali não se conhecia Machado, nem se falava português, nem inglês ou espanhol. No máximo, um francês arranhado. Na parte da ilha onde eu morava, a única língua corrente era o malgaxe. Pensando nisso, foi então que me ocorreu uma ideia: já que viveria ali por mais uns três anos, eu mesmo poderia traduzir ou apresentar Machado de Assis para o idioma local. Seria o primeiro homem da história a fazer essa ponte — do brasileiro ao malgaxe.
Ainda estava aprendendo a língua. Mas logo lembrei de um velho amigo que conheci na Universidade quando morei na Holanda, David Jaomanoro. Madagascarense da gema, talvez ele se interessasse e pudesse me ajudar no projeto. Primeiramente, eu mesmo precisaria traduzir o livro para o inglês. Passei três meses mergulhado naquela tradução, muitas vezes, à luz de velas, sob a brisa tropical, embalado pelo canto dos pássaros e o chamado noturno dos lêmures. Um deles, que sempre vinha me fazer companhia, batizei de Quincas. Tinha a pelagem malhada, cor de chumbo. Pensei em chamá-lo Julian, mas Quincas lhe caía melhor. Enquanto fumava um cigarro, pensava no Brasil. Já fazia muitos anos desde que partira, na missão de catequese. Olhava o céu, as matas, as luzes tênues da vila — e me vinha uma saudade profunda. Em breve, eu estaria de volta.
Quando terminei a tradução, enviei-a para a caixa postal de David, junto de uma carta. Contei que a tradução era minha, expliquei quem foi Machado e a dimensão do que ele escreveu. Vinte dias depois, recebi a resposta. David estava empolgadíssimo com o trabalho. Já lera romancistas e poetas de todos os tipos do mundo inteiro, mas nenhum o havia encantado tanto. Encomendou outras obras que estavam disponíveis na Europa e garantiu que faria de tudo para que houvesse o quanto antes traduções não só para o malgaxe, mas para todas as línguas austronésias — É um gênio, todo o mundo precisa conhecer, dizia o final da correspondência.
Estava feliz, mas minha felicidade ficou completa quando, cerca de um ano depois, recebi outra carta. Nela, David dizia que a Universidade de Antananarivo havia publicado as primeiras edições em malgaxe de Quincas Borba, Dom Casmurro, Memórias Póstumas e uma coletânea de contos. O bruxo do Cosme Velho encantou professores, pesquisadores e para grande surpresa, o povo. Os livros estavam se espalhando rapidamente por Madagascar, Indonésia, Filipinas, Malásia, Polinésia e outras regiões da Oceania. As edições vendiam como água. Inesperadamente, centros de estudos de português começaram a surgir nesses países.
Recebi de presente algumas destas edições, em uma das capas, havia um caixão e um verme, a imagem do velho Machado, com seus óculos pince-nez e uma frase enigmática em uma língua estrangeira dizendo:

“Ho an’ilay kankana nikiky ny nofo mangatsiakan’ny fatin’ny nofoko no atolotro ho fahatsiarovana.”
Eu nem precisava ter aprendido malgaxe para saber o que aquilo significava. Logo depois do estouro daquela febre, retornei ao Brasil. Recebia notícias de amigos. Em poucos anos, estimava-se que mais de cem milhões de cópias haviam sido vendidas. Um número exorbitante — ainda mais para um escritor brasileiro naquela região do globo. Recebia fotos e, em alguns lugares, a moda era usar pince-nez, pois todos estavam encantados com a imagem daquele senhor de olhar oblíquo, barba e bigode grisalhos. Os trajes do século XIX — paletó, colete, gravata — retornaram a moda. A febre machadiana era real — e absurda. David me mantinha atualizado por e-mail. Ainda assim, naquilo tudo, uma coisa me intrigava: como podia tanto sucesso passar despercebido? Nenhuma reportagem, nenhuma homenagem? Nenhum Globo Repórter?
Foi o que pensei, até ler no jornal que os voos vindos da Ásia estavam congestionando as companhias aéreas, com turistas ávidos por visitar o Cosme Velho e o Morro do Livramento. Foi quando de fato começaram a investigar o fenômeno e descobriram a origem — e mesmo assim, não deram importância. No máximo, uma nota em jornais, algumas curtidas e matérias em revistas literárias. Era Machado fazendo sucesso em meio mundo — e, aqui, ninguém dizia nada. Por que? Talvez por que não falavam inglês.
Anos depois, surgiu uma febre machadiana nas redes e o país voltou a ler. Uma escritora americana rasgou elogios a Memórias Póstumas de Brás Cubas.
Enquanto isso, Machado ganhava a China, superando os escritos de Mao Tsé-Tung e Cervantes.
Em Port Moresby, capital da Papua-Nova Guiné, há um busto seu com uma inscrição em português: “Defeitos não fazem mal, quando há vontade e poder de os corrigir.” * Eric Costa e Silva, professor na rede privada em Parnaíba, cronista, contista e memorialista.