Me aponte com um dedo na cara, quem um dia não odiou aquela atividade, chamou de a mais infame, desgraçada, a mais repulsiva que existe no mundo, aquele de quem não tem quem goste, mas que é a última, a derradeira, aquela que causa medo, ás vezes até nojo no mundo dos vivos, que é a fronteira entre os vivos e os mortos, o coveiro.
É uma atividade silenciosa, humilhante para alguns, honrada para outros, sem emoção e resguardo. O coveiro, que nas cidades do interior é atividade reservada aos mais humildes, uma profissão às vezes familiar. Ficam ali, calados, sisudos, olhando para o chão, não tem opinião, palavra.
O coveiro é o senhor que vai um dia, numa manhã, uma tarde de chuva fina, de sol poente, vai enterrar nossos mortos, aqueles que amamos, enterram a nós mesmos todos os dias. Para ele não existe distinção de classe social, riquezas, credos, fama, nada.
O coveiro, naquela atividade tão particular, enterra o rico, o pobre, o lascado, o mendigo, o que buscou a vida toda o sucesso, o anônimo, a velha, a menina, o devoto, o que negou Deus e os seus santos, o aposentado que findou nos remédios, o que odiou ir ao médico, o ateu, a solteirona, a faladeira da vida alheia, a que fazia bolos, aquele que se engasgou de tanto comer, o que fumava maconha, o que bebia conhaque.
O coveiro vai enterrar sem a menor das emoções, o esmoler, a que foi dia foi puta, aquele que nunca, levou um chifre, aquela que morreu virgem, aquele que escreveu suas memórias com caneta esferográfica, a velha que rezou pelos seus mortos, o que morreu entre as ferragens na estrada, o que achava que sabia nadar, o que odiava brincadeiras de meninos, aquele que se achava feio ou palhaço, o que deu suas terras para se fazer uma praça, o que comprou todos os bilhetes de um circo para distribuir aos meninos pobres, o que brigou na rua e o que gozou sem sexo, o que escondia moedas dentro de uma lata.
E naquela expressão tão triste dos coveiros, que nunca ninguém vai saber se estar alegre ou comovido, se está sendo pago pela prefeitura, se recebeu uma gorjeta gorda do dono do defunto, se tem um filho drogado que dorme o dia inteiro para sair à noite, se não tomou café, um gole de aguardente, que não sabe o que vai almoçar hoje, se tinha um único cigarro, se teve que acordar cedo, se foi chamado a atenção no serviço.
O coveiro é naquele momento a pessoa a quem colocamos culpa pela nossa e a morte dos nossos. Não passa emoção, não chora, nem soluça, não reclama, quase não fala, somente o necessário, o suficiente para continuar sua atividade, ele sabe que ninguém gosta de perder, quem vai dar atenção no que vai falar, ninguém quer morrer, ninguém gosta de entrar em cemitério. E toda aquela festa quando se acabar aquele movimento em que ele é a pessoa que mais chama a atenção, quando todos tiverem chorado e lamentado o seu morto, o coveiro volta para casa em silêncio, como se nada tivesse acontecido. Pádua Marques, contista, cronista e romancista, da Academia Parnaibana de Letras.