O ovo. Pádua Marques.

Agora que acabou, passou o Natal do velho Noel e o carnaval do Rei Momo, dos desfiles e escolas de samba e dentro de mais alguns dias vem a Semana Santa, todo mundo voltou pra seus o que fazer, aí entra em cena um elemento que quando se tem algum dinheiro ninguém dá nada por ele em casa, na cozinha, quando o assalariado, o lascado, o metido a rico e aquele que ainda tem algum tostão no bolso, não pagou ainda as contas de luz, água, internet e outras ditas despesas domésticas, o ovo.

Sim, aquela figura mais do que conhecida na casa de pobre, que pelo que se sabe até hoje, as máquinas, a tecnologia, a indústria de embalagens, essa tal de inteligência artificial, o diabo a quatro, ninguém fez igual como a natureza, sem um ponto de costura, emenda, nada no mundo. Nem adianta nem tentar porque não vai encontrar a precisão, a perfeição, o desenho de um ovo.

Ovo, três letras. Duas vogais repetidas e uma consoante no meio, mas que tem um significado imenso sim senhor. Ovo. Como alimento m casa de pobre e justamente aquele pobre que tem uma carrada de filhos, de tudo que é idade e tamanho, aquele pobre que lá pelo dia 15 de todo mês, já está no desespero do fiado, se é que ainda existe esse negócio na venda da esquina. Aí entra o ovo.

O ovo, seja cozido ou frito, misturado com farinha, um pouco de banha ou azeite de coco e feijão, aquela farofa dá pra atender até uns cinco meninos. Em casa de pobre, se bem que tem pobre que não gosta de ser chamado de pobre, desses que só porque tem uma televisão pra assistir o Luciano Hulk  aos domingos e um celular de marca, fica se pabulando achando que mudou de classe social, mas come feijão, farinha e ovo.

O ovo é assim esse socorro, que está sempre lá na porta da geladeira, dentro de uma vasilha de plástico com a tampa encardida de tuperware, pronto para entrar em cena quando a coisa aperta. O ovo está lá, na dele, silencioso, frio, aquele olhão grande quando é quebrado dentro da frigideira. É uma beleza quando misturado com farinha, azeite de coco, aquele cheiro velho conhecido na hora das vacas magras dentro da cozinha.

Pobre gosta de ovo. É comida pra quem tem pressa, só anda aperreado, catando papel, pagando boleto vencido, em fila de empréstimo consignado. O ovo é comida de filho que gosta de chegar na mesa da família atrasado, aquele que bota banca com galinha, diz que não gosta de salcicha. Daquele que adora contrariar o cardápio da dona de casa.

O ovo é comida daquele filho desobediente, que só anda apressado. Mas se por um lado é comida prática, também é aquela comida que depois vai provocar vergonha. Às vezes, sem culpa alguma é sempre culpado quando dentro de um ambiente fechado, alguém solta um peido, baixo, silencioso, alguém vai sempre achar um culpado de ter comido ovo.

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Pádua Marques

Jornalista, cronista, contista, romancista e ecologista.

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