O pião e a roda. * Pádua Marques.

Quando era menino eu sempre gostei de construir meus próprios brinquedos. Levava horas e até dias. Era coisa de calcular de que seria feito, o tamanho, a duração, a cor e a utilidade. Testados, agora era a hora de sair pra brincadeira. E geralmente eram brinquedos de uso solitário. Eu sempre fui um menino solitário. Não porque não tivesse um irmão ou colegas, mas de certa forma eu gostava de ter essa coisa, essa intimidade sem ninguém por perto. Essa viagem com o brinquedo. Eu falava com ele.

A infância com brinquedos é uma viagem. E se forem brinquedos rústicos, livres dessa coisa de se movimentarem por conta própria nos tirando o domínio sobres eles, esses são os brinquedos que servem. Nada de carrinhos movidos a pilha, os de fricção, que na verdade chegaram a ser meu desejo. Nada desses atuais eletrônicos. Brinquedo bom é aquele que se dá vida a ele. Eu dei vida aos meus brinquedos.

Mas de todos os brinquedos que eu possuí, apenas dois não tive a paciência de conversar e dar atenção a eles, que é o que toda criança deve fazer com os seus brinquedos. Esses dois brinquedos foram, o pião e o papagaio. Se eu voltasse a ser menino um dia, eu deixaria que fossem embora de minha vida, tal qual se faz com uma bolha de sabão que tem vida breve. Sinceramente e pra falar a verdade eu não aprendi com os outros meninos mais experientes a manusear esses dois brinquedos.

O pião de madeira polido ou rústico e feito a facão no fundo do quintal. Esse que todo menino no meu tempo e no tempo certo andava com um no bolso do calção ou da bermuda. Vinha sempre pela lei dos piões acompanhado do cabinho, um tipo de cordão especial muito resistente. E no meu tempo de menino haviam meninos ditos finos pra jogar pião no meio da rua, no pátio da escola na hora do recreio e até aqueles que faziam malabarismos, jogavam apostado dinheiro.

Mas gostava de ver quando o pião era solto dando aquele ronco e alcançava o chão duro da rua ou da calçada. E o dono, aquele menino de meu tempo, vinha devagarinho mostrar suas habilidades, fazendo ele subir pelo braço, descer até o chão, correr pelo cabinho. E os outros meninos ficavam admirados e procurando em suas vezes fazer melhor pra ganhar a aposta. Passava um tempo e o pião sumia de nossas brincadeiras.  Ia embora aparecer pra outros meninos em outros lugares.

O outro brinquedo que me causou decepção até hoje, embora ache muito bonito e elegante, é o papagaio. Noutras terras e na boca de outros meninos tem outros nomes. Mas no meu tempo de menino era papagaio. Feito no capricho, de papel de seda e com uma armação de pindoba ou talas de palhas de coqueiros. Tinham os meninos mais velhos afamados na construção de papagaios de todos os tamanhos e de cores variadas. As quitandas vendiam papagaios, as linhas de carretel, tudo.

E os meninos ao chegarem em casa com um papagaio debaixo do braço se danavam a procurar papel. Podia ser papel de revista Contigo ou Sétimo Céu, os de saco de cimento, mais resistentes. E no final das tardes os meninos se danavam a soltar seus papagaios aproveitando o vento forte de julho. Os meninos menores faziam os seus papagaios, as famosas curicas, com papel de caderno e até com folhas de cajueiro. E era negócio pra movimentar as quitandas com a venda de tubos de linha. E em casa os meninos eram de surrupiar pelas gavetas das máquinas de costura as linhas Círculo ou Corrente pra soltar papagaios. As linhas compradas na quitanda tinham um número.

Eu um dia ganhei de minha tia um papagaio de papel de seda. Lembro feito hoje, era banco e verde. Veio já pronto com linha e até o rabo. Mas em minhas mãos de menino de sete anos, o papagaio quando ganhou altura acabou alcançando os galhos de um pé de cajá umbu de um terreno vizinho. Foi tudo muito rápido. Ficou lá em cima se rasgando com o vento da manhã. De tarde e no outro dia fui ver dele o que havia sobrado. Só a armação! Nunca mais tive e nem me interessei por papagaios. * Pádua Marques, cronista, contista e romancista, Membro da Academia Parnaibana de Letras e do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba.  

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Pádua Marques

Jornalista, cronista, contista, romancista e ecologista.

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