O triste fim dos orelhões. Pádua Marques.

Pouca gente deu importância, até porque se trata de um objeto, coisa sem vida e que mais cedo u mais tarde vai perder a serventia. Mas esta semana a Anatel, Agencia Nacional de Telecomunicações anunciou que todos os aparelhos conhecidos como “orelhões, devem ser retirados de serviços, ficando apenas naquelas cidades aonde não tenha a cobertura de internet.

Pouca, mas pouca gente, principalmente as mais idosas, se deram conta do que esses objetos tidos em tempos idos tão importantes e necessários, representaram no passado distante. Eles foram o máximo da tecnologia da comunicação de massa, prestaram um inestimável serviço ao Brasil e à sua gente. Foram procurados para que o brasileiro falasse com os seus, de amor, família, saudades, negócios, viagens, reconciliação, mudanças de casa, de trabalho, endereço. Agora neste ano de 2026, a Anatel ordenou que os que ainda existem pelos rincões, desde o Acre até o Rio Grande do Sul, sejam retirados.

 O orelhão ajudou a encurtar distâncias, deu alô, deu adeus, disse feliz aniversário, feliz Natal, feliz Ano Novo, te amo, Deus te abençoe, vou chegar semana que vem, não volto mais, me esqueça. Fui aprovado, nasceu seu neto, aqui está chovendo muito, lá faz muito frio, estou sem dinheiro, deixe pra outra vez, não há de ser nada, passou, me perdoe, se agasalhe, não se esqueça de fechar a porta, tenha cuidado com o cachorro, saudades de minhas filhas.

O orelhão, nisso eu digo em particular como nordestino em terra alheia, quantas e quantas vezes, com saudade da terra boa, ele me ouviu como se fosse minha mãe, perguntei pelos irmãos, pelo pai, os tios, primos, os vizinhos, os amigos e conhecidos, quis saber da rua e fiquei sabendo que tinham morrido amigos, parentes, amigos antigos, vizinhos antigos, uma professora velha. E ele lá de pé, firme, suportando o sol e a chuva das ruas de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Fortaleza, em muitas vezes suportando minhas esquisitices, raivas, amuos, sem nada reclamar pela minha falta de educação.

E em quantas vezes, o orelhão teve que ficar guardando segredos, igual aquele amigo que levamos no coração. Quantas mentiras o orelhão teve que silenciar, não deixando que o sujeito atrás de mim ouvisse aquele segredo mais íntimo, uma confissão mais pesada. O orelhão ali, ouvindo tudo, me deixando abrir o coração, dizer as verdades mais sinceras, mas que poderiam ferir alguém.

Por tudo isso e muito mais é hora de dizer adeus. Hora de dizer que você, orelhão, foi um amigo que esperou toda semana, uma vez no mês, eu vir lhe ver, com o coração cheio de saudades, falar com os meus na terra distante. Muito obrigado.  Descanse em paz e na paz dos que serviram aos homens.

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Pádua Marques

Jornalista, cronista, contista, romancista e ecologista.

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