Hoje não existe mais. É um costume antigo e que a modernidade faz de um tudo para apagar nessa época de festas juninas, passar fogo. Mas bastava entrar junho, com suas fogueiras, balões, bolos de milho, aluás, canjicas, bumba meu boi, quadrilhas, lá estavam as fogueiras nas portas de casa, alumiando as noites, chamando gente, vizinhos, conhecidos, parentes, colegas de sala de aula, de trabalho. E aparecia gente do oco do pau. Bastava saber que havia fogueira por perto.
Mas passar fogo era um costume muito interessante. Hoje não tem mais. As pessoas ficaram grosseiras, briguentas, impacientes, os maus costumes é quem mandam. O mundo se tornou um lugar de gente chata! Mas voltando para a conversa de passar fogo, bastava alguém iniciar. Vamos passar fogo!
E lá estavam as moças, velhos, novos, meninos e meninas, rapazes, meninos engrossando a voz e o talo da pinta, mocinhas já se engraçando deste ou daquele rapazinho, iam todos para a beirada da fogueira passar fogo. Queriam ser uns dos outros, madrinhas, padrinhos, comadres, compadres, afilhados e às vezes até mãe ou pai. Era um laço de parentesco nascido na beira do fogo, de mentira e que haveria de durar a vida toda.
E como manda a tradição começava por Santo Antônio. Os dois pretendentes se davam as mãos e iam repetindo: Santo Antonio disse, São Pedro confirmou, pra gente ser compadre, que São João mandou”, e ia segundo de acordo com o desejo dos dois, que no final de repetir três vezes, apertavam mãos na altura da fogueira e a partir daquela ocasião seriam parentes de fogueira.
E a gente moça, na flor da idade e da beleza ia fazendo fila olhando quem haveria de ser sua comadre ou madrinha. E aquele parentesco de folclore ia crescendo com a noite. Coisa para durar a vida inteira, tomar a bênção e coisa e tal, coisa de chamar a atenção. E não era difícil ouvir que fulano ou sicrano é meu compadre de fogueira, beltrano é meu afilhado de fogueira, minha afilhada e coisa a tal é meu tio de fogueira. E a lenda conta que até aconteceu casamento, batizado e outras festas por causa desse costume tão simples de selar uma amizade na beira do fogo. * Pádua Marques, folclorista, romancista, cronista e contista, da Academia Parnaibana de Letras e do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba.