Era um costume antigo e que com a chegada ao mercado dos inseticidas caiu em desuso. Mas hoje caiu em desuso. Pouca gente há de se lembrar que houve um tempo em que para debelar a ferocidade das muriçocas que infestavam e ainda infestam a Parnaíba, principalmente o bairro de Fatima e arredores, a população se valia de um remédio caseiro que era tiro e queda e catinga: queimar merda de vaca.
Muita gente que andava de bunda pra cima no meio dos campos, dos alagados, lá pros lados do Ioiô Pires, atrás de merda de vaca, pra quando chegasse a noite tacar fogo dentro de casa empestando tudo de fumaça. Ora sim senhor! Era, diziam, um santo remédio pra assustar esse inseto tão insolente que se danava a cantar no seu pé do ouvido tão logo o sol se escondia.
Isso mesmo, merda de vaca. E era daquela seca encontrada no meio dos capins. Não tinha Detefon que se compare no efeito. Isso era receita dos mais antigos, essa gente vinda do mato, das roças, acostumada a toda sorte de maluquices.
E a roupa da gente ficava com aquela catinga de merda de vaca queimada, essa mesma roupa que seria a roupa de ir à missa de domingo na distante igrejinha de Nossa Senhora de Fátima no Macacal. Que coisa mais primitiva, queimar merda de vaca pra afugentar muriçocas!. Mas pensando bem até eu surtia efeito.
Agora vê se pode um negócio desses. A dona-de-casa vai receber uma visita, a madrinha dos meninos que vem deixar um agrado pros meninos no Natal e o convidado tem que aturar aquela catinga de merda de vaca dentro de casa, entranhada nos móveis, na roupa da anfitriã, no cabelo dos afilhados. Pois era assim mesmo, do jeito que estou falando.
E a catinga durava dias, ia pra cozinha, pros quartos, empestava a casa inteira, as roupas de dormir, o diabo que fosse! Pior que catinga de castanha assada. E olhe que tinha gente que queimava coisa pior. Pneu velho de bicicleta, mulambo, folha de bananeira, coisa que os americanos nunca foram capazes de imaginar!
Depois, foi que muito depois apareceu as famosas espirais Sentinelas, o Detefon, enfim os inseticidas em spray. Mas isso era pra casa da gente rica lá de dentro da rua, que é como se dizia antigamente. Pobre mesmo, queimava mesmo era merda de vaca. Em 23 de dezembro de 2025. Pádua Marques é cronista, contista e romancista, pertencente à Academia Parnaibana de Letras e o Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba.