São Benedito perdeu a cabeça.* Pádua Marques.

Minhas irmãs arranjaram com uma colega de igreja, uma diarista pra fazer o serviço de limpeza mais pesado na nossa casa do bairro Dirceu, aqui perto da rodoviária. Há umas duas semanas, se muito, a moça veio, na verdade uma senhora casada e muito zelosa, mostrou serviço e ganhou os difíceis elogios de minhas irmãs quando se trata de faxina em casa.

A primeira vez estava ganha e agora era esperar pra semana seguinte. E foi o que deu. No início dessa semana minha irmã precisou de novo dos serviços da diarista e na terça-feira bem cedo, no cagar dos pintos, como diria o Kenard Kruel, lá estava ela tocando a campainha com aquela disposição de quem precisa ganhar dinheiro de forma honesta com seu trabalho.

E foi chegando e já foi limpando tudo, espanando as cadeiras, passando pano nos armários, enxugando o molhado, lavando o banheiro, vidraça, dando brilho nas bacias, limpando os enfeites da sala e tudo o mais. É uma diarista diferente das outras. E de pouca conversa. Se estar pra fazer seu serviço. Ela faz e não adianta andar com conversa, puxando assunto com a dona da casa, assunto de televisão ou da vida alheia de algum conhecido da vizinhança. Nada disso.

Minhas irmãs têm é gostado dela. O certo é que virou a casa de cabeça pra baixo, mas deixou tudo um brinco. Eu, embora não pareça tenho uns santos de minha devoção. Santo Antônio, daí meu nome, Santa Teresinha, que sempre quando entro na igreja da matriz de Nossa Senhora das Graças no centro, vou lá rezar umas seis aves maria e um padre Nosso; São Longuinho, aquele que está sempre com uma lanterna e que segundo os entendidos é invocado para se achar coisas perdidas dentro de casa.

Eu tenho uma irmã que ganhou um São Longuinho, até que de bom tamanho. Pois não é que na primeira oportunidade ele perdeu São Longuinho! Tenho ainda um São Benedito, que também segundo os estudiosos é padroeiro dos cozinheiros e que tendo um na cozinha, não deixa faltar alimento. Todos esses santos ficam em cima de um armário lá na cozinha, perto da geladeira, pegando uma fresca por causa do imenso calor.

Pois não é que essa semana, a zelosa diarista, limpando uns azulejos, com aquele cuidado de quem estar na casa alheia, num descuido de nada, desviou o movimento da mão e acertou logo São benedito! O negro foi ao chão e quebrou o pescoço. Eu acho aquele São Benedito uma graça. Humilde, quase corcunda, aqueles olhos tristes de quem passou a vida levando carão no convento e ainda ter que carregar pra cima a pra baixo, aquele menino branquinho e de cabelos encaracolados, o menino Jesus.

A diarista, tão logo percebeu o ocorrido, comunicou às minhas irmãs se desmanchando em desculpas. Ora, não foi nada, são casos que acontecem, acontece até com a gente, imagine com São Benedito! E assim o santo pretinho, padroeiro dos cozinheiros, que passou a vida no pé do fogão, que deve ter comido o pão que o diabo amassou, meu São Benedito, que me acompanha depois de tantos anos, está agora de pescoço quebrado. Justamente na Semana da Consciência Negra. Pádua Marques, cronista, contista e romancista, membro da Academia Parnaibana de Letras e do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba.

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Pádua Marques

Jornalista, cronista, contista, romancista e ecologista.

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