Um dia desses, um dia que não me preocupei de olhar na folhinha detrás da porta, eu fiquei cá comigo a pensar que não deve ser fácil e nem um pouco agradável uma guerra. Porque a calcular pelo barulho de um trovão, desses que tem rebentado por aqui nesses dias de chuva de tarde, não deve ser nada suportável. Trovão é trovão e bomba é bomba, porque bomba em guerra ninguém é doido de prever onde vai cair. E ainda mata gente. Trovão é só barulho.
Mas se bem que faz tremer o chão, derruba panela, faz perder os óculos, os medrosos e os meninos se mijam todos, a gente fica rodando feito maria besta sem encontrar o rumo da porta de casa, menino, tem é coisa. E eu ouvir dizer que lá pras bandas de Bitupitá, aqui perto, os peixes já estão é correndo para dentro da canoa quando sabem que vai dar um trovão. Peixe sabe das coisas da natureza. E é de lá também que fiquei sabendo que a rezadeira, a velha Gonçala, que tem uma multidão de santos nos oratórios dentro do quarto presenciou um dos encontros mais inusitados.
Outro dia de tarde, deu uma daquelas chuvas de meter medo, e ela, caiu na besteira de ir atrás de uma caixa de fósforo, acabou pisando na chinela e se arriou no chão. E perto presenciou uma discussão entre os santos que estão no oratório. São Francisco pisou no pé de São Benedito, que incomodado, achou de dar um beliscão em Nossa Senhora da Conceição. São Sebastião, tentando se livrar das cordas e das flechas, achou de falar que estava sendo desrespeitado, humilhado, perseguido pelo sistema, a polícia e por São Jorge, que em cima de um cavalo, estava se tornando inconveniente.
E a confusão foi se alastrando, a conversa se encompridando, chama esse santo de cá, esse mais lá na frente não quis se envolver e por aí vai a coisa. Acharam de chamar o velho e sonolento São Pedro, este já entrou na sala enquadrando todo mundo, dizendo que São Jorge tinha autoridade porque era um militar, entrou no serviço público pela porta da frente e não devia indicação a políticos. E a velha Gonçala ia contando essa história e aumentando os personagens. Nessa altura, entra São Francisco e uns três cachorros de seus cuidados. Cachorro é bicho inconveniente e acabou mijando na batina de São Pedro. Menino…
E lá fora a chuva caindo, relâmpagos e trovões de fechar o céu e a velha dona Gonçala, ainda procurando um toco de vela porque naquela altura a luz da Equatorial havia ido embora e quando ela vai não volta tão cedo. E os santos se desentendendo. São Pedro quis colocar os cachorros de São Francisco do recinto pra fora, começou uma nova discussão. Nossa Senhora Aparecida já estava se tremendo de medo de São Pedro se valer do cajado e agredir o cavalo de São Jorge.
A velha Gonçala, que em outros tempos alguém chamava de madrinha Gonçala do Bitupitá, era cultuada e reconhecida nas ruas, agora estava só o caco. E acrescentou que essa confusão dentro de seu oratório era coisa daqueles trovões e relâmpagos a perder de vista. Os santos estavam agora discutindo uma comissão para ir até Deus e pedir moderação porque aonde estavam seus subordinados já não cabia mais ninguém. Que agora toda cidadezinha do Ceará pegou no dente de construir umas imagens gigantes de santos achando que tamanho qualquer um pode entrar no Céu. Não é assim não. Padre Cícero Romão Batista está a quase cem anos esperando na fila e a toda hora chega um e passa na frente e nada. Tem que ter padrinho forte. Já ouvi até dizer que é coisa de dinheiro e não é pouco.
E a chuva lá fora foi passando justamente antes do Jornal Nacional. Todos os santos foram, ficando calmos e procurando assento no imenso salão do céu. São Pedro, o mais velho de todos, colocou os pés em cima da mesa e acendeu o cachimbo. Santa Clara, achando graça daquela harmonia toda, mas se incomodou com aquele cheiro forte e foi procurar assento perto de Nossa Senhora de Fátima. Os cachorros e um jabuti de São Francisco, o ecologista, foram se chegando pra frente, igual menino em casa alheia no tempo de televizinho. E todo mundo na frente da televisão, esperando, quando o César Tralli, disse: Boa noite.
Pádua Marques, cronista, contista, romancista, da Academia Parnaibana de Letras e do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba.